Programador “Religioso” x “Filósofo”

March 1st, 2010

Há algum tempo atrás enquanto usava o GTalk encontrei uma mensagem sensacional que o Anselmo Alves havia colocado no seu status:

“Philosophy is questions that may never be answered. Religion is answers that may never be questioned.”

(“Filosofia são questões que podem nunca ser respondidas. Religião são respostas que nunca podem ser questionadas.”)

Quando li essa frase imediatamente lembrei do que acontece no dia-a-dia do nosso mercado; do ambiente de trabalho a conferências e listas de discussão. Sem querer entrar em detalhes profundos ou em opiniões/flames sobre assuntos não-técnicos, vejo que existem dois tipos de programadores: os Religiosos e os Filósofos.

A palavra “religião” vem do latim “religio”, que significa “prestar culto a uma divindade”. Os programadores Religiosos fazem exatamente isso: aproveitam todas as oportunidades que podem para louvarem a sua linguagem ou framework favoritos. Os Religiosos dificilmente aceitam “religiões” diferentes da sua e os mais extremistas acreditam que a sua linguagem ou framework resolve todos os problemas do universo e são a chave da salvação da humanidade. Eles aceitam tudo cegamente e nunca reconhecem ou questionam os defeitos desses projetos que apoiam (e em alguns casos mais extremos até transformam esses problemas em “features”). Quando aparece um problema pela frente não precisa nem pensar: ele usará a sua ferramenta favorita para resolvê-lo, não importa o que seja (um padrão também conhecido como “One Ring to rule them all”).

“Filosofia” vem do grego “philos” (que ama) + “sophia” (sabedoria), ou seja, “que ama a sabedoria”. Filosofia é a investigação crítica e racional de questões, ou seja, um programador Filósofo não está procurando defender uma linguagem ou framework mas sim em investigar várias delas, analisar como elas funcionam e refletir sobre como elas podem ajudá-lo a resolver problemas. Os Filósofos são curiosos; eles sempre querem compreender e questionar o funcionamento e utilidade das ferramentas que usam. Quando precisam resolver um problema eles analisam de forma racional todas as opções que conhecem e se nenhuma delas for boa o suficiente eles pesquisam e procuram uma opção mais eficiente.

Um programador precisa resolver problemas complexos com qualidade e precisa ser cada vez mais produtivo/veloz para atingir um objetivo (desenvolver um produto, terminar um projeto da sua empresa e por ai vai). A melhor ferramenta não é a sua preferida ou aquela que você escolheu para seguir e amar, e sim aquela que te faz ser mais rápido, mais produtivo, com mais qualidade e que te dá mais conforto para trabalhar. A melhor ferramenta é a que melhor atende os requisitos da sua profissão e do seu projeto, não o seu ego (ou sua religião).

Seja menos “religioso” e mais “filósofo”! Com a mente aberta e sem encarar ferramentas como “a verdade definitiva” (ou descartando-as sem ao menos testar e conhecer como funcionam) você terá muito mais chances de ser bem-sucedido.

Vem aí o Yahoo! Brasil Open Hack Day 2010!

February 5th, 2010

Dando início às atividades de 2010 (Já estava na hora), estamos organizando o Yahoo! Brasil Open Hack Day que acontecerá nos dias 20 e 21 de março de 2010 no Centro Universitário Senac (Campus Santo Amaro).

Vencedores da Categoria "What the hack was that"

Esta será a segunda edição do evento no Brasil, que também já acontenceu em Sunnyvale, Londres, Bangalore e Taiwan. A última edição no Brasil foi em novembro de 2008 e foi um sucesso enorme; com aproximadamente 200 participantes e uma porção de hacks interessantes!

Serão 24 horas sem parar de hacking, aprendizado, diversão e a oportunidade de conhecer outros hackers! O Yahoo! vai patrocinar comida, bebida e tudo mais que os hackers precisarão para ficarem confortáveis, felizes e liberarem sua criatividade! Haverá também um espaço pra dormir caso alguém queira tirar uma soneca.

No último Hack Day (que eu infelizmente não estava presente) houve hacks muito legais, de aplicações móveis a hacks de hardware. Por exemplo, os ganhadores da categoria “What the Hack” usaram Python, Flickr, Twitter e alguns pedaços de hardware para construir uma placa com LEDs que piscavam mais ou menos dependendo do número de fotos no Flickr e posts no Twitter com a tag oficial do Hack Day.

Também houve um hack super criativo sem código (como assim?!?!), que inclusive acabou obrigando que uma nova categoria fosse criada – “Using the environment Hack”:


Vamos juntos criar novos aplicativos usando as plataformas abertas do Yahoo! como YQL, YAP, Meme, YUI3, Pipes, Flickr e, é claro, quaisquer outras ferramentas de desenvolvimento abertas que você quiser usar. Os melhores hackers ganharão um prêmio e o direito de serem vangloriados até o fim dos tempos ou o próximo Hack Day, o que quer que aconteça primeiro. :)

As inscrições são limitadas, portanto corra e faça logo a sua em http://hackday.com.br! Caso tenha alguma dúvida entre em contato pelo e-mail openhackbrazil@yahoo-inc.com.

Está aberta a temporada de hacking no Brasil!

Yahoo! procura Ninjas

January 14th, 2010

Estamos procurando Desenvolvedores e Scrum Masters Ninjas para integrarem nossa equipe no Yahoo!

Nosso time é o que chamamos de “Innovation Cell”, que é algo como uma incubadora de projetos, responsável por pesquisar e criar novos produtos. Atualmente nosso carro-chefe é o Yahoo! Meme, que foi inteiramente desenvolvido no Brasil no último ano e já está em vários outros países como Indonésia, Filipinas, México, Argentina e Taiwan.

Desenvolvedor Ninja

Os Desenvolvedores Ninja serão responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção de aplicações web, em especial o Yahoo! Meme e outros aplicativos de integração com redes sociais. É imprescindível ser faixa preta em Python, PHP ou JavaScript e conhecer bem pelo menos uma segunda outra dessas três. Mesmo sendo essas as principais linguagens que usamos por aqui, precisamos de desenvolvedores multidisciplinares que saibam usar diferentes tipos de ferramentas – porque nunca sabemos quais produtos virão no futuro e que tipos de vantagens poderemos ter usando ferramentas diferentes.

Tão ou mais importante do que isso é ter ótimos conhecimentos sobre desenvolvimento ágil e ser capaz de trabalhar com TDD, entender sobre CI e a sua importância, automatização de rotinas/build/etc., melhores práticas de desenvolvimento de software, Orientação à Objetos, Domain-Driven Design e tudo mais que puder ser relevante para ajudar a construir software confiável e manutenível de forma rápida e com ritmo/qualidade sustentável. Experiência com automatização de testes com Selenium ou Webdriver também é essencial.

Como desenvolvemos produtos de escala mundial, é necessário ter experiência com aplicações de alta performance e disponibilidade, identificação e otimização de gargalos de performance, escalabilidade, caching e sharding. É importante também ter bons conhecimentos de pelo menos um tipo de Unix e seus derivados.

Conhecimentos de OpenSocial, desenvolvimento de mashups, arquitetura de serviços e experiência com uso e desenvolvimento de APIs (REST, YQL, etc.) são diferenciais.

Scrum Master Ninja

O Scrum Master Ninja deverá ajudar o time de desenvolvimento a produzir no máximo da sua capacidade. Sua missão será organizar e facilitar os Sprint Plannings e Reviews, bem como Retrospectivas e o que mais for necessário para suportar os times de desenvolvimento e produto. Ele deverá identificar e remover impedimentos, ajudar o time a manter o foco mas dando todo o espaço e autonomia que ele precisa para se auto-organizar e gerenciar. É necessário já ter tido alguma experiência anterior relevante nesta posição.

Como o Yahoo! é uma empresa que em sua maioria ainda trabalha com métodos tradicionais de desenvolvimento, esta pessoa também será responsável por fazer com que o time esteja dentro das normas da empresa, gerando relatórios para as células de gerenciamento de projetos e fazendo algum trabalho burocrático de registro e comunicação de métricas.

Queremos um Scrum Master influente, que seja capaz de entender questões técnicas mesmo que em alto nível, que seja apaixonado por procurar maneiras de melhorar o processo de desenvolvimento, construtivo na hora de resolver problemas e solucionar conflitos e com muita vontade de descobrir novas maneiras de trabalhar com métodos ágeis. O Yahoo! é uma empresa que ainda está engatinhando em métodos ágeis e por isso precisamos de alguém com muita disposição e vontade de mudar a empresa!

Por último, experiência com XP, Lean Software Development, Kanban e diversos métodos ágeis são diferenciais.

Continuando…

Para ambas as posições é necessário inglês avançado, o que quer dizer que você deve ser capaz de conversar e ler/escrever em inglês sem problemas (e eventualmente ser entrevistado em inglês caso necessário).

Estamos procurando por pessoas criativas, que gostem de inovação, de pesquisar e identificar novas tendências e de encarar desafios complexos com agilidade e velocidade. Nosso time é pequeno, jovem e nosso ambiente está em constante mudança e evolução. Queremos pessoas irreverentes, que gostem de desafios, com idéias novas e com vontade de criar produtos incríveis!

A empresa oferece contratação apenas por CLT e benefícios como plano de saúde e ticket refeição. Estamos localizados na Vila Olímpia em São Paulo. Vamos dar preferência para pessoas de São Paulo mas também vamos olhar com carinho currículos de pessoas de fora e daremos auxílio para mudança caso necessário.

Se você se encaixa em algum destes perfis, mande seu curriculo em inglês para mim (gc AT yahoo-inc.com) com uma lista dos últimos 3 livros técnicos que leu. Não esqueça de colocar links para o seu Twitter, LinkedIn e o que mais você achar relevante e que pode nos ajudar a te conhecer melhor. :)

Um empresa inteira “ágil”?

December 16th, 2009

Conversando no mês passado com meu amigo Siraj ficamos nos perguntamos porque a “filosofia” ágil não emplaca nas empresas como um todo. O que eu quero dizer é que é razoavelmente fácil hoje em dia encontrar o departamento de desenvolvimento de produtos/software de uma empresa usando métodos ágeis, mas o que falta para o RH, Marketing, Financeiro, Administrativo, Comercial e todos os outros departamentos também entrarem nessa?

Quando você começa com desenvolvimento ágil não é só o processo de desenvolvimento de software que muda mas também vários detalhes de como a sua empresa funciona. Por exemplo, é muito difícil imaginar um time ágil que funcione com “comando-e-controle”. Os times são auto-gerenciados, o que implica em um outro estilo de gestão. Ao invés de chefes que cobram, aparecem os líderes-servidores, que dão todos os recursos possíveis para que seus times possam trabalhar e tomar decisões. A base da pirâmide é que passa a decidir e não mais o topo, porque eles são os mais indicados por deterem o melhor conhecimento para fazer isso. Em alguns casos mais extremos em empresas mais modernas como a Semco, são os próprios funcionários que contratam seus gerentes.

Ou seja, quando falamos de métodos ágeis, por mais que estejamos nos referindo aos métodos ágeis de desenvolvimento de software existem uma porção de outros conceitos e filosofias que acabam entrando no mesmo barco por serem tão intimamente relacionados.

Tenho um exemplo para tentar explicar melhor onde eu quero chegar. Uma vez eu trabalhava numa empresa de tamanho razoável que, como várias outras desse porte, tinha um tradicional departamento de RH. Num dia eu tive um problema bem urgente e precisei da ajuda do pessoal do RH. Quando fui conversar com eles, duas coisas desagradáveis aconteceram. Primeiro, eles me trataram mal e como se estivessem fazendo um favor pra mim. Segundo, eles disseram que meu pedido só seria atendido em alguns dias, porque eles tinham muitas coisas importantes para fazer. O que acontece é que minha filha estava muito doente, eu tive um problema com meu plano de saúde e eles não estavam liberando meu atendimento por nada. Um time de RH com a “cultura ágil” saberia em primeiro lugar que, dado que eu sou o principal “usuário” deles, eu mereço atenção, respeito e os meus problemas são os problemas deles. As urgências dos funcionários deveriam ser mais importantes do que qualquer papelada que eles tenham para fazer. E em segundo, mesmo que o backlog deles fosse absurdamente grande, um assunto com tamanha severidade com certeza “furaria” a fila.

Então, quando eu digo que outros departamentos das empresas poderiam ser “ágeis”, não estou sugerindo que eles trabalhem com desenvolvimento ágil de software – o que não faria nenhum sentido – mas sim que eles usem os mesmos conceitos de liderança, times auto-organizados trabalhando num ambiente participativo, baseado na confiança e cooperação, fazendo um movimento e esforço maiores para entenderem quem de fato são seus “usuários” e quais são suas necessidades, criar visões para seus produtos e departamentos (que os ajudariam a tomar melhores decisões) e por aí vai.

Pegando esse departamento de RH que falei acima como exemplo, não seria perfeitamente aceitável que eles fizessem um exercício de personas para descobrirem qual é o perfil dos seus usuários? Não seria ótimo que eles fizessem sessões de chartering, discutissem seus valores, fizessem retrospectivas para descobrirem como melhorar seu processo e assim por diante? Imagine quão transparente e organizado seria chegar na sala deles e ver um quadro de Kanban mostrando sua linha de atividades, o progresso delas e os gargalos da equipe?

Acho que talvez isso não aconteça porque grande parte do material e exemplos disponíveis sobre esses assuntos estão formatados para pessoas relacionadas à desenvolvimento de software. Sim, existem livros como os do Ricardo Semler que estão categorizados nas livrarias como “Administração” ou “Negócios”, mas não sei porque o pessoal de Administração e Negócios não parece se interessar por esses assuntos. Porque será?

Já está na hora desse “fork” entre a comunidade ágil das empresas e as outras áreas acabar. Chega uma hora que parece que existem duas empresas funcionando totalmente diferentes dentro de uma. Precisamos trazer pessoas das outras áreas e outros níveis hierárquicos para as conferências e para o nosso mundo. Vou adorar o dia que eu for na Agile Conference e conversar com Gerentes de RH, VPs de Marketing e outras pessoas que não sejam do departamento de desenvolvimento; ou então quando for nas reuniões de grupos de usuários e não encontrar somente os “agilistas” mas também os administradores, os analistas de recursos humanos, os contadores e por ai vai.

E aí, por onde vamos começar?

Até a próxima, Globo.com!

December 5th, 2009

Não imaginava que isso fosse acontecer tão cedo, mas 2009 é o meu último ano na Globo.com.

Meu sonho aqui era ajudar a construir uma coisa maior do que eu e ter uma história para contar. Tenho muito orgulho de ter contribuido para mudar uma empresa tão tradicional como a Globo e de ter trabalhado diretamente num dos maiores exemplos de mudança organizacional e adoção de metodologias ágeis do Brasil. Trabalhei nos produtos de maior audiência da Internet brasileira, entreguei dezenas de projetos bem sucedidos, quebrei diversas barreiras e ganhei o respeito de dezenas de pessoas. Foi incrível! Me sinto feliz por ter cumprido uma grande parte dos meus objetivos e sei que meus amigos que vão me substituir vão continuar a fazer mais conquistas e vão fazer um trabalho muito melhor que o meu, levando a Globo.com para o caminho do sucesso. E como eu já aprendi, o mundo dá voltas. Quem sabe um dia eu sinto saudades do Rio de Janeiro… :)

É muito difícil saber as palavras certas pra usar numa hora dessas. A Globo.com é uma empresa incrível para trabalhar e, até onde eu consigo enxergar, a melhor do Brasil. Disparada. Ela foi inspiração para dezenas de posts desse blog e eu não tenho palavras pra dizer o quanto sou grato por ter tido a oportunidade de trabalhar com pessoas tão talentosas nesses anos todos aqui. Eu adoro essa empresa, dei meu sangue por ela, aprendi mais do que em qualquer outro lugar que trabalhei e conheci alguns dos melhores profissionais desse mercado. Queria citar os nomes de todos vocês e agradecê-los por terem me ensinado tanto, mas não quero correr o risco de esquecer nenhuma sequer das dezenas de pessoas que me apoiaram ao longo desse caminho. Em todas as minhas temporadas e equipes na Globo.com fiz amigos que vou levar para a vida toda e que vou sentir muita falta. É muito triste e muito difícil deixar tantas conquistas e realizações para trás, mas o tempo não pára e eu preciso seguir em frente para conquistar todos os meus sonhos.

Em Janeiro de 2010 estou me mudando para São Paulo e partindo para vôos mais altos e novos desafios no Yahoo!, assumindo a posição de Software Development Manager. Aliás, aproveitando a oportunidade, temos várias vagas em aberto, mas isso é assunto para um outro post. :)

Muitos desafios me aguardam e eu espero ter bastante história pra contar. Estou muito empolgado para trabalhar em produtos novos e criar novas maneiras de facilitar e divertir a vida das pessoas. Vou trabalhar também para tornar o Yahoo! um lugar ainda mais incrível para trabalhar, com ainda mais software e produtos de qualidade e mais uma referência em desenvolvimento ágil no Brasil e – sendo um pouco mais ambicioso (no sentido positivo da palavra) – no mundo!

Mais uma vez, obrigado Globo.com. Yahoo!, aí vou eu!

2 anos de Scrum e Agile na Globo.com e algumas coisas que eu aprendi

December 4th, 2009

Já se passaram pouco mais de 2 anos desde que começamos a trabalhar oficialmente com Scrum e Agile na Globo.com e um pouco mais de 2 anos e meio desde que a coisa toda começou de fato.

Depois de trabalhar diariamente com processos ágeis e uma porção de times diferentes na Globo.com, minha sensação é a daquele dito popular que diz que quanto mais você sabe de alguma coisa, mais você descobre que tem que aprender. De tempos em tempos surgem idéias novas excelentes e as vezes são coisas tão simples que eu me pergunto porque nunca tinha pensado nelas. Ou então algumas idéias que não deram certo no passado voltam à tona, são colocadas em prática e passam a funcionar muito bem. Sempre que eu acho que já aprendi como alguma coisa funciona alguém aparece com uma idéia melhor e me prova que eu estava errado em achar isso.

Me lembro quando perguntei lá no início para o Boris Gloger sobre o tempo que levaria para as coisas acontecerem. Na época ele falou que para uma empresa do tamanho da Globo.com certamente levaria de 2 a 4 anos para as coisas mudarem de fato. Eu achei um exagero e que ele estava louco, mas era eu que não tinha noção do tamanho da coisa toda. Ele estava certo.

Infelizmente eu não tenho uma história romântica para contar e estaria mentindo se dissesse que as coisas são maravilhosas depois que você adota Agile, Scrum ou o que quer que seja. Muito pelo contrário, os problemas começam a aparecer e tudo fica caótico. As vezes a quantidade de problemas chega a ser enlouquecedora e minha insônia aumentou consideravelmente depois disso. Mas eu não tenho nenhuma dúvida de que os processos ágeis são os que mais se adaptam às características de projetos de desenvolvimento de software, mais do que qualquer outra coisa que eu já tenha usado. Tivemos muito mais sucesso do que em qualquer outra iniciativa na história da empresa e as coisas acontecem muito mais e muito melhor do que aconteciam antes, mas mesmo assim ainda temos um caminho muito longo pela frente.

Hoje eu consigo entender com mais clareza o real sentido do empirismo que tanto se fala. Mesmo com pilhas de livros sobre desenvolvimento ágil na minha prateleira, eu olho para trás e vejo que o processo de “tentativa e erro” foi muito mais importante para o meu aprendizado do que qualquer teoria. Várias coisas escritas nos livros deram certo para alguns times e não deram para outros, e no fim das contas o que ficou foi uma mistura de todas essa experiências. Fomos fazendo as coisas, vendo o que dava certo ou errado, mudando, adaptando e seguindo em frente. Hoje não dá pra dizer que a Globo.com usa Scrum, XP, Lean ou Kanban. Você pode encontrar todos os seus sabores preferidos de Agile por aqui, às vezes misturados e até mesmo bem customizados e diferentes do tradicional.

Nesse tempo todo vivenciei muitos problemas, muitos sucessos, muitas derrotas, muitas falhas e muita mudança. Eu queria poder dizer que encontrei o Santo Graal do desenvolvimento ágil, mas dificilmente isso existe. E se existir, provavelmente o da minha empresa será diferente da sua e por ai vai. Porém, eu posso falar de algumas coisas que eu aprendi e que talvez possam ser úteis para outras pessoas e empresas:

Você sempre estará em transição.

Basicamente eu não acredito mais em transição ágil como eu já li por ai, que parece uma coisa que tem inicio, meio e fim. Hoje eu percebo que sempre se está em transição. Sempre surgirão projetos novos com características diferentes e sempre será necessário ajustar e se adaptar. Isso tudo fora que as pessoas e os times também mudam, e ai começa tudo denovo. É um trabalho que nunca acaba.

É muito fácil começar a fazer Scrum, o difícil é vencer a resistência das pessoas.

Grande parte do meu tempo nesses anos foi investido em quebrar barreiras e a resistência das pessoas. E não estou falando de diretores ou gerentes, às vezes os piores problemas estão dentro dos times. Os mais diversos tipos de problemas acontecem: tem gente que tem medo de trabalhar em par e expôr suas fraquezas para os outros, tem gente insatisfeita na empresa que envenena iniciativas, enfim, acontece de tudo. É muito importante trabalhar com pessoas bem intencionadas, comprometidas e que acreditam no que estão fazendo e que acreditam que as coisas sempre podem (e devem) ser melhoradas.

As pessoas precisam estar felizes.

É importantíssimo que a empresa reconheça seus talentos, que eles ganhem o que merecem e que eles trabalhem num ambiente agradável. Ninguém trabalha direito e dá 100% do seu potencial se não estiver feliz e satisfeito com a empresa. Pessoas infelizes e insatisfeitas podem acabar com um time inteiro, por isso a empresa tem que dar o primeiro passo e dar todas as condições para que isso não aconteça e, quando acontecer, resolver o problema o mais rápido possível.

Se o foco das pessoas for em “fazer telas”, “testar” ou “escrever software”, você está perdido. O foco das pessoas deve ser o produto, e não a sua função.

Muito desenvolvedor não gosta de fazer teste exploratório “porque isso é função do cara de QA”. Muito designer não gosta de fazer CSS e HTML porque isso é coisa de “desenvolvedor de front-end”. Bullshit! Imagine se um zagueiro está com a bola na linha do gol e diz que não vai fazer o gol porque não é atacante? Não tem essa, o foco é ganhar o jogo, entregar o produto, deixar o cliente feliz, não importa fazendo o que. Com o tempo você descobre a receita do time (quantidade de pessoas de cada especialidade) para que as pessoas passem a maior parte do tempo fazendo sua especialidade, mas isso não significa que elas não devem fazer ou entender de outras coisas.

Escalar não é facil. Aliás, se for possível, não escale nunca.

Times ágeis funcionam melhor quando são pequenos, porque o universo de pessoas é menor e a comunicação é melhor, as pessoas confiam mais no resto do time e por aí vai. Quando o número de pessoas e de times aumenta, a comunicação fica problemática e isso gera uma porção de problemas, desde coisas triviais como conflitos de merge até coisas mais complexas de resolver como falta de confiança, dificuldade em mudar de direção, dificuldade de passar a visão do produto, pessoas querendo aparecer mais do que outras e por aí vai. Faça um teste: reuna 30 amigos seus e tentem combinar um lugar para almoçar em no máximo 2 minutos. Repita o teste com 3 amigos e compare os resultados. Foi possível combinar um único lugar de forma unânime? Quanto tempo levou? Quais foram os conflitos de interesse? Qual foi o nível de barulho, stress e insatisfação das pessoas? Ter mais pessoas ajudou a fazer com que a decisão fosse mais rápida ou mais demorada? Talvez esse não seja o melhor exemplo do mundo mas vai ser bem fácil de perceber como times grandes se organizam com muito mais dificuldade.

Boas práticas de engenharia e desenvolvimento ágil como automatização, testes, refatoração, programação em par, integração contínua e TDD são fundamentais, imprescindíveis, inevitáveis, totalmente obrigatórias.

Todos os grandes saltos de qualidade e produtividade que demos na história da evolução da Globo.com foram porque essas práticas foram intensificadas e usadas com mais disciplina, e todas as vezes que elas não recebem a devida importância a velocidade diminui, a produtividade baixa e o time entrega menos (e com mais defeitos).

Um dos “problemas” com o Scrum é que ele não fala nada sobre usar essas práticas. Isso é proposital porque o intuito era que ele fosse bastante genérico e simples, mas como muitas pessoas gostam de seguir o livro cegamente sem pensar, elas acabam achando que não é necessário fazer o que não está escrito, e daí a probabilidade de fracasso é gigantesca. Você pode usar Scrum para produzir um marca-passo, por exemplo, mas você seria louco de não testá-lo exaustivamente só porque não está escrito? Você tem que fazer, porque é uma necessidade imposta pelo tipo de projeto. Com software não é muito diferente: se você não faz TDD, seu código fica pouco testável, e consequentemente você refatora menos ou tem dificuldade para fazê-lo. Consequentemente o tempo para implementar novas funcionalidades aumenta cada vez mais e como o cliente está sempre cobrando mais e mais coisas, você passa a testar menos para dar tempo de fazer mais funcionalidades. E por aí vai (para o buraco).

As regras são excelentes quando você não sabe o que está fazendo. Depois que aprender, quebre-as.

Geralmente quando as pessoas começam com Agile o que se recomenda é que você siga as regras à risca por algumas iterações até que você aprenda e que o processo esteja “no sangue”, e só depois que possíveis customizações devem ser feitas. Muita gente confunde isso com “sempre siga as regras à risca”. Por exemplo, hoje alguém me convenceu numa conversa que o Sprint Planning 2 do jeito que um determinado time estava fazendo estava bem inútil, uma grande perda de tempo. A sugestão foi fazer uma coisa mais “just-in-time”, ou seja, na hora que a história começar a ser desenvolvida. Muita gente pode falar que “ah, mas não é assim que o Scrum funciona” ou o clássico “aqui na empresa nós não fazemos desse jeito”. Se você tem um bom motivo para mudar as regras do jogo, discuta o assunto com o time e implemente as melhorias. Não existe essa coisa de “as regras do Scrum”, existem times produtivos com alta capacidade de adaptação e em constante evolução ou times que passam 50% do tempo discutindo o processo e não deixam o cliente feliz.

Trabalhar num ambiente ágil é muito muito muito mais divertido.

Acabei de passar quase 40 dias de férias e em conferências. Muita gente estaria odiando voltar para o trabalho depois disso, mas eu gostei. Quando eu cheguei hoje na empresa depois de mais de 1 mês a minha mesa já não era mais minha e eu não achava meu computador. O escritório mudou totalmente e o time que eu estava está todo misturado. Quando eu entrei na sala as pessoas estavam em pé discutindo, rabiscando no quadro e o barulho estava alto pra caramba. Depois de contar as novidades, de almoçar e de alguns updates, passei o resto da tarde programando em par numa tarefa que nem eu e nem o meu par faziamos idéia de como resolver, mas juntos descobrimos como fazer e resolvemos o problema. Foi um dia caótico porém muito produtivo e muito divertido, como a maioria dos que eu tenho. Tudo muda muito e está em constante evolução, e cada dia é um novo desafio. Se você gosta de ficar escondido atrás da “baia” e tem dificuldades em dividir o seu teclado com um amigo, recomendo fortemente que você não use Agile.

Agile não é o Santo Graal.

Nenhum processo de desenvolvimento (ágil ou não) é perfeito. Muita gente gosta, muita gente não gosta, alguns não se adaptam, outros se motivam a cada dia com os novos desafios e é assim que as coisas funcionam. <ironia> “Agile é tão perfeito” </ironia> que quando as coisas dão errado é muito mais fácil culpar o seu processo e reclamar que ele não funciona. Bullshit! Como o Jeff Patton fala, as pessoas fazem isso porque o processo não vai se defender de você e porque é muito mais dificil assumir e enxergar os problemas de verdade. Uma das chaves de ser bem sucedido nesses processos é entender que eles são apenas ferramentas muito simples e que se não estão funcionando é porque você precisa encontrar e resolver algum problema da sua empresa, do seu time, das pessoas ou do que quer que seja. Não bote a culpa no processo.

As pessoas são mais importantes que o processo. Foco nas pessoas.

São elas que fazem tudo acontecer. Quanto mais agentes de mudança sua empresa puder ter, melhor. A empresa tem que reconhecer essas pessoas e motivá-las para que elas motivem ainda mais seus pares e assim por diante. É preciso dar liberdade para elas criarem, tentarem coisas novas e errarem sem medo de serem repreendidas. Faça de tudo para que todos estejam felizes e motivados. Resolva os conflitos. Coloque tudo em pratos limpos. Trate todos com respeito e como amigos. Faça as pessoas crescerem e deixe (e ajude) que elas tenham visibilidade dentro da empresa. De todas as coisas que eu vi até hoje, nada é mais eficaz do que ter as pessoas certas do seu lado.

Nada disso é definitivo e eu posso mudar de opinião a qualquer momento sobre qualquer uma dessas coisas. Aliás, hoje numa conversa aprendi que é ótimo mudar de opinião, porque significa que você aprendeu alguma coisa nova/diferente que te fez pensar de uma forma nova/diferente e, portanto, você evoluiu. Fica então a última:

Crie sua opinião, aprenda mais e mude sua opinião. Esteja em constante evolução.

QCon 2009, aí vou eu!

November 16th, 2009

QConEsses últimos dias foram uma loucura e eu não consegui parar um segundo pra blogar sobre a Agile Dev Practices (que foi muito legal, por sinal)! Estou agora na minha segunda e mais esperada conferência desta viagem, a QCon 2009 em San Francisco!

Esta é a minha segunda participação nessa conferência sensacional com alguns dos melhores palestrantes e profissionais de desenvolvimento de software do mundo!

Espero conseguir colocar os posts em dia durante a semana. :)

Agile Development Practices Conference 2009, aí vou eu!

November 9th, 2009

Agile Development Practices ConferenceDepois das minhas curtas (porém divertidas) férias, estou aqui em Orlando para participar da Agile Development Practices Conference 2009, organizada pela Software Quality Engineering!

Amanhã será o primeiro de dois dias de tutoriais seguidos de dois dias de conferência com a participação de grandes nomes do mundo ágil como Jeff Patton, Alistair Cockburn, Mike Cohn, Jim Highsmith, Andy Hunt, David Hussman, Joshua Kerievsky, Linda Rising, Alan Shalloway e por aí vai. Para encerrar, na sexta-feira acontecerá o Agile Leadership Summit liderado pela Pollyanna Pixton.

Os próximos dias prometem! :)

[Dev in Rio 2009] Podcast!

October 6th, 2009

Essa notícia está 1 dia atrasada mas ainda tá valendo: o Gustavo Guanabara finalmente terminou o Podcast com a cobertura do Dev in Rio 2009!

Ficou muito muito divertido! As entrevistas com os palestrantes Ryan Ozimek, Guilherme Silveira, Fabio Akita e Jacob Kaplan-Moss ficaram ótimas e ainda conseguimos alguns convidados especiais para participarem na hora como o Paulo Silveira, Marcos Tapajós e Mauricio Samy Silva (o Maujor). Uma pena que o Nico Steppat e o Jeff Patton não puderam participar mas fica para a próxima.

Ainda, quem quiser ver o “making of” do Podcast pode acessar os vídeos no canal do Dev in Rio no Vimeo.

[Rails Summit 2009] Nós vamos e você também pode ir :)

October 2nd, 2009

Eu, Guilherme Cirne, Emerson Macedo e Anselmo Alves já estamos preparando as malas para ir no Rails Summit 2009 (isso sem falar do resto da galera do Rio de Janeiro que também vai em massa)!

Tá afim de ir também? Então faça um vídeo criativo explicando porque você também quer ir na Rails Summit 2009 e poste o link aqui nos comentários. O vídeo mais criativo (que será escolhido por mim e o Fabio Akita até o fim do dia 07 de outubro) vai ganhar um convite para a Rails Summit 2009!