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Cuidando para que o software não apodreça

Sunday, July 20th, 2008

Infeliz o sujeito que teve a idéia de comparar desenvolvimento de software a construção de prédios. Até hoje, em pleno século 21, algumas pessoas ainda acreditam que para fazer software você deve fazer exatamente como na construção civil: você deve ter “engenheiros” que fazem um grande projeto especificando exatamente como tudo vai ser, depois os pedreiros constroem e no final está tudo pronto e funcionando conforme a especificação.

Desenvolvimento de software não tem absolutamente nada a ver com construção!

No livro The Pragmatic Programmer, Dave Thomas e Andy Hunt fazem uma analogia muito mais apropriada: fazer software não é como constriur prédios mas sim como jardinagem. É muito mais “orgânico” do que “concreto”. Inicialmente você planeja muitas coisas para o seu jardim de acordo com as condições atuais de terra, clima, etc. Você precisa plantar as sementes, regar todo dia e cuidar para que as pragas não acabem com tudo. Você pode com o passar do tempo mover suas plantas de lugar para tirar vantagem de fatores como exposição ao sol, sombra ou até mesmo para fazer a rotatividade da terra. Você poda suas plantas constantemente e move alguns tipos de flores de um lugar para o outro para que o jardim fique melhor esteticamente. Se alguma planta cresce demais, pode ser que o espaço que você planejou para ela tenha ficado pequeno, e então é necessário movê-la de lugar. Enfim, não é uma coisa que você planeja, mas sim uma coisa que você tem uma idéia inicial e trabalha ao longo do tempo para fazer o melhor possível dentro daquela idéia.

Assim como o jardim, se o software não receber todos os cuidados necessários ele apodrece. Quando um software apodrece, é impossível implementar qualquer funcionalidade num tempo aceitável, é impossível colocar em produção sem que alguém tenha que ficar de babá, enfim, tudo passa a ser imprevisível. Nos piores casos passa a ser até impossível “tocar” no software, e esses monstros viram aqueles softwares que “se o servidor desligar ele não liga nunca mais”. E o pior é que isso acontece toda hora. Quantas vezes você já não pegou um projeto tão ruim, mas tão ruim que seria mais fácil fazer do zero do que consertá-lo? Isso é um sinal claro de software podre.

Para evitar que isso aconteça, o que se deve fazer é reavaliar a situação do software a cada história/funcionalidade implementada. Um bom desenvolvedor sempre avaliará se não é hora de mover algumas coisas de lugar, generalizar algumas funcionalidades, reescrever algumas porções de código e etc. – assim como faria um bom jardineiro. Isso deveria ser uma lei, não uma opção.

Os times ágeis trabalham com um conceito que é a “definição de pronto” (DOD – definition of done). A definição de pronto diz quando é que uma funcionalidade pode ser considerada pronta ou finalizada. Na minha opinião, para se considerar uma funcionalidade “pronta” é necessário no mínimo:

  • Desenvolver a funcionalidade
  • Testar unitariamente (melhor ainda se for fazendo TDD)
  • Testar a integração com outros componentes (quando for o caso)
  • Verificar se o build do projeto funciona sem erros e fazer o deploy em uma ambiente de produção simulado
  • Testar segundo os critérios de aceitação estabelecidos pelo cliente
  • Depois dos testes desenvolvidos e a nova funcionalidade passando em todos eles, avaliar a necessidade de fazer refactoring no novo código
  • Com a entrada da nova funcionalidade, avaliar a necessidade de fazer refactoring em algum módulo do sistema
  • Atualizar a documentação (quando necessário)

Pode parecer um exagero ou muito trabalho, mas não é. A questão é que você não pode deixar para fazer nenhum desses itens depois de 2 meses de desenvolvimento, você precisa fazer isso desde o primeiro dia! Quando você deixa para depois, você acaba acumulando o famoso débito técnico, e depois poderá ter que pagá-lo com juros, que poderão ser muito altos. O melhor é fazer aos poucos, a cada passo dado, porque desta forma o trabalho sempre será muito menor e não irá onerar o projeto. Mais uma vez fazendo analogias, é como câncer: você pode se previnir e tentar evitar que ele aconteça, ou você pode esperar ficar doente para depois ter que fazer uma arriscada cirurgia invasiva (e mesmo assim pode não dar certo, e aí perde-se o paciente).